Violência Sexual e Consentimento: Análise da Sentença n. 47582 de 2024

A sentença n. 47582 de 15 de outubro de 2024, proferida pela Corte de Cassação, levantou importantes questionamentos sobre a responsabilidade dos profissionais de saúde em relação à liberdade sexual dos pacientes. Em particular, a Corte analisou o conceito de erro sobre o consentimento e os requisitos necessários para que tal erro possa ser considerado relevante no âmbito penal.

O Contexto da Sentença

O caso envolvia um médico de família acusado de violência sexual contra uma paciente. Durante uma consulta, o médico havia realizado um ato que afetava a liberdade sexual da paciente sem fornecer informações adequadas sobre a natureza e as razões do tratamento. A Corte examinou se a ausência de consentimento informado poderia constituir um erro sobre o consentimento nos termos do artigo 59, parágrafo quarto, do Código Penal.

A Máxima da Corte

Atos realizados no exercício da profissão de saúde que incidam sobre a liberdade sexual - Erro sobre o consentimento do titular do direito - Pressupostos - Informação correta sobre os modos e razões dos tratamentos a serem realizados - Necessidade - Hipótese. Em matéria de violência sexual, o erro sobre o consentimento do titular do direito ao ato praticado, pelo médico, que, durante uma consulta, afete sua liberdade sexual, é relevante, nos termos do art. 59, parágrafo quarto, do código penal, desde que o agente tenha previamente fornecido ao paciente informações completas, atualizadas e compreensíveis sobre os modos e as razões do tratamento a ser realizado, de modo a permitir um efetivo exercício do direito de autodeterminação. (Hipótese em que a Corte considerou imune a censura a exclusão da excludente putativa em relação a um médico de família que, alegando a necessidade de um exame das ovários sem explicar nem o tipo de manobra a ser realizada, nem a ligação com a queixa de desconforto estomacal, havia introduzido o dedo na vagina de uma paciente).

Implicações da Sentença

Essa sentença tem importantes implicações não apenas para os profissionais de saúde, mas também para os pacientes. Aqui estão alguns pontos-chave:

  • Informação Completa: É fundamental que os médicos forneçam informações claras e completas sobre os tratamentos propostos, permitindo assim que os pacientes exerçam seu direito à autodeterminação.
  • Responsabilidade do Profissional: Se o médico não fornecer informações adequadas, não pode invocar o erro sobre o consentimento como excludente para atos que afetem a liberdade sexual do paciente.
  • Reflexo Normativo: A sentença chama a atenção para a importância da informação correta no contexto da profissão de saúde, destacando o respeito às normas do Código Penal.

Conclusões

A sentença n. 47582 de 2024 representa um passo significativo na proteção da liberdade pessoal no âmbito da saúde. Ela enfatiza a necessidade de uma comunicação clara e transparente entre médico e paciente, evidenciando como a violação deste princípio pode ter graves consequências legais. A responsabilidade profissional não pode ser evitada, e o consentimento informado deve estar sempre no centro da prática médica, garantindo assim a dignidade e os direitos dos pacientes.

Escritório de Advogados Bianucci